Nas belas fachadas de pedra calcária branca e nas coberturas em telha de barro vermelho consideradas Património da Humanidade pela UNESCO desde 1979, a cidade de Dubrovnik esconde uma longa história de adversidades enfrentadas com excepcional resiliência.

Nas belas fachadas de pedra calcária branca e nas coberturas em telha de barro vermelho consideradas Património da Humanidade pela UNESCO desde 1979, a cidade de Dubrovnik esconde uma longa história de adversidades enfrentadas com excepcional resiliência. A fundação da cidade, com origens no séc. VII, é já um primeiro sinal das dinâmicas que haveriam de animá-la até aos nossos dias. Com efeito, a história começa com a chegada de refugiados de Epidaurum, uma pequena colónia romana um pouco mais a Sul. Estes, em fuga dos invasores Ávaros e Eslavos que assolavam a região, estabelecem-se no promontório protegido à beira do Adriático, com o imponente Monte Srdj de rocha calcária nua como pano de fundo.

A cidade vai crescendo, usufruindo primeiro da protecção romana e, após a queda do império, de Bizâncio, o império romano do Oriente. A estabilidade crescente que se fazia sentir é abalada em 1205 pela mudança de governo. Com uma estratégia assente em objectivos comerciais, a república de Veneza, a Serenissima, expande o controlo sobre uma série de territórios a Nascente do Adriático, incluindo a pequena cidade de Ragusa, mais tarde conhecida como Dubrovnik. É tal o alargamento das fronteiras da república veneziana que o Stato da Màr – território ultramarino da cidade italiana – estende os seus braços até zonas tão longínquas como as ilhas de Creta e Chipre. O historiador do Mediterrâneo Fernand Braudel chamar-lhe-á a frota imóvel de Veneza.

Dubrovnik só voltará a conseguir lutar por uma posição estratégica nos mares com o Tratado de paz de Zadar, em 1358. Apesar de se configurar a partir dessa época como um estado vassalo do reino Húngaro, a cidade consegue um estatuto de autonomia que lhe permitirá aumentar a influência no Mediterrâneo, acabando por rivalizar directamente com a república veneziana. Descontente com a situação, Veneza impõe pesadas sanções sobre as transacções com origem em Dubrovnik, tentando impedir a sua ascensão. Os comerciantes croatas, percebendo a inutilidade de competir nos mesmo termos, acabam por usar esta crise como oportunidade de mudança e crescimento, construindo navios de maiores dimensões que viriam a permitir viagens de longo curso ao longo de todo o Mediterrâneo. Passam então a cobrir um território marítimo desde os Balcãs até Espanha, e das latitudes francesas até às regiões semi-desérticas do Egipto. Para além deste impulso na transacção em rotas marítimas, a sua posição geográfica é ainda uma chave essencial para compreender a função de charneira nas rotas para Istanbul e para a Europa central. Associada ao florescimento comercial, nasce uma vida cultural intensa, com importantes poetas, cientistas e artistas. O crescimento cultural e económico desta cidade cosmopolita conduz a importantes passos sociais como a abolição do comércio de escravos em 1418.

Um novo abalo à integridade e estabilidade de Dubrovnik surge em 1667, desta vez de modo literal. Na manhã do dia 6 de Abril, um violento terramoto agita o solo durante segundos, destruindo mais de três quartos da cidade e ateando incêndios com as fogueiras das casas e das padarias que só viria a ser extinto mais de vinte dias depois. Este evento, somado à decadência das rotas comerciais por mar, acaba por acentuar o declínio da República de Ragusa. Duas décadas mais tarde, os governantes vêem-se forçados a vender largas parcelas de terra ao Império Otomano, numa tentativa desesperada de controlar o avanço das tropas venezianas. É uma destas zonas que ainda hoje dá a Dubrovnik uma estranha posição geográfica no país, como exclave, encontrando-se separada da restante Croácia por uma porção de terra da Bósnia Herzegovina. A Bósnia tem, por sua vez, nessa estreita faixa de terra, o seu único acesso directo ao mar.

Apesar de se declarar como território neutro durante as guerras napoleónicas, Dubrovnik acaba por ser conquistada em 1808 por Napoleão e oferecida à Áustria. Um século depois é incorporada na Jugoslávia e, no final do século XX, desejando retomar a independência, luta como parte da Croácia durante a Guerra dos Balcãs. O cerco montado pelo exército jugoslavo durante sete meses em 1991 e os respectivos bombardeamentos provocaram a perda de vidas humanas e a destruição de mais de metade da cidade. No entanto, tal como durante séculos aconteceu, Dubrovnik voltou a reerguer-se. Ainda hoje, observando a cidade do alto e notando as diferenças subtis entre as antigas telhas vermelho-escuras e as mais recentes telhas de cor vermelho-claro, é possível desenhar um mapa das cicatrizes.

A muralha com quase 2km de perímetro é um dos ex-líbris de Dubrovnik e é considerada uma das mais importantes fortificações medievais do mundo. No mosteiro Franciscano, de grande sobriedade mas elevado requinte artístico, encontramos também a mais antiga farmácia ainda em funcionamento, datada de 1317. A via Stradun, que foi até finais do séc. XIII um vale pantanoso entre a cidade e a floresta adjacente, acabou, com o tempo, por converter-se na artéria principal.

Dubrovnik é uma pérola arquitectónica mais bela ainda quando vemos reflectida nos edifícios e nas imponentes muralhas a determinação de um povo que enfrentou as dificuldades de cada época com mestria e criatividade, conformando uma cidade única e com um carácter refinado pelos contactos que estabeleceu com o mundo conhecido à época. Bebendo das fontes culturais de Ocidente e Oriente, conseguiu criar uma urbe original que ainda hoje nos delicia ao percorrer as ruelas aninhadas nas fortificações com mais de cinco séculos de vida.

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