Inspiração de artistas, lugar de simbolismo pré-histórico, repositório de antigas tradições, Carnac é um espaço imenso preenchido pelo peso da história. A intensidae deste lugar sente-se, mais do que se compreende.

No Noroeste de França, junto ao oceano Atlântico, encontramos a maior concentração de megálitos do mundo. São cerca de três mil pedras de granito da região erigidas há mais de 4500 anos num espaço actualmente protegido como Monumento Histórico e inscrito em 1996 na lista indicativa da UNESCO, encontrando-se em processo de candidatura a Património Mundial. As zonas mais distintivas são filas de menires que ocupam vastas zonas de paisagem chamadas alinhamentos. Os menires encontram-se dispostos por ordem crescente de tamanho em direcção a Poente, sendo o formato em que provavelmente se encontravam à data em que foram erguidos. Dos diversos conjuntos que sobrevivem, os principais são os de Le Ménec, Le Petit Ménec, Kermario e Kerlescan.

O alinhamento de Kermario é o mais famoso, em especial por exibir as pedras mais altas da região, contando-se 10 linhas de menires num total de 982 pedras erigidas. Não muito longe deste alinhamento encontramos um menir isolado apelidado Géant du Manio, que faz jus ao nome com uma impressionante altura de 6 metros acima do solo.

A história destes monumentos é atravessada por largos tempos de desinteresse e desconhecimento sobre a sua importância arqueológica, justificando em parte o abandono e destruição sucessiva que sofreram ao longo dos séculos. Alguns menires terão sido mesmo utilizados como matéria-prima para a construção de edifícios próximos, como a igreja de Carnac em 1629 e, possivelmente, o farol de Belle-Île-en-Mer em 1826.

O primeiro registo escrito onde são mencionados data de 1750 e em 1764 o conde de Caylus regista a sua opinião de que estes menires pertencerão a uma época anterior aos romanos e gauleses. Em 1790, Pommereul propõe que os menires sejam de origem celta e essa ideia prevalece na atribuição da origem histórica durante décadas. Em 1881, o arqueólogo James Miln sugere novas interpretações, retomadas em 1920 pelo seu assistente Zacharie Le Rouzic. Após um longo estudo do local, esta equipa tenta compreender as práticas e rituais que lhe estariam associados e dedica-se à recuperação e protecção dos alinhamentos, repondo algumas pedras que tinham sido deslocadas ou removidas para facilitar a actividade agrícola. Estes trabalhos de recuperação não impediram, porém, nos anos 50, a destruição de vestígios arqueológicos e o reposicionamento de algumas filas de pedras para construção de uma estrada nas imediações.

Muitos significados têm sido atribuídos a estes alinhamentos megalíticos, preenchendo com lendas o folclore local. Uma das histórias encontra-se associada a São Cornélio, mártir, santo protector do gado na Bretanha e vigésimo primeiro papa da Igreja Católica, com um curto pontificado entre os anos 251 e 253. Segundo a lenda, São Cornélio estaria a ser perseguido por soldados pagãos enquanto fugia acompanhado por dois bois que lhe transportavam a bagagem. Um dia, ao alcançar o extremo da Bretanha, viu-se entre o oceano por um lado e as tropas que o envolviam por terra. Nesse momento, ter-se-ia escondido atrás da orelha de um dos bois, transformando os soldados em pedras. Os menires seriam assim os soldados petrificados que perseguiam São Cornélio, dispostos em formação de batalha. Na banda desenhada, os vestígios megalíticos da região ocupam um lugar de destaque na obra de Uderzo e Goscinny com as aventuras de Astérix. Este pequeno gaulês não dispensa a companhia do seu amigo Obélix e dos seus famosos menires.

As hipóteses científicas que tentam explicar os alinhamentos carecem de confirmação, como de resto acontece na maioria dos casos de interpretação simbólica de vestígios megalíticos. Considera-se, com algum grau de certeza, que não seriam pedras tumulares, dado que não foi encontrado qualquer vestígio de necrópole na zona dos menires. No entanto, dada a proximidade de dólmens e cromeleques, atribui-se-lhes uma possível função sagrada nos rituais dos povos do Neolítico.

Ao visitar estes alinhamentos, vale a pena fazer um pequeno desvio até à Table des Marchands e ao Grand menhir brisé d’Er Grah. A Table des Marchands ou Mesa dos Comerciantes vê o seu nome atribuído possivelmente devido à grande laje plana que se encontrava visível. Este dólmen de dimensões extraordinárias tem uma pedra de cobertura de 7 metros de comprimento por 4 metros de largura e 80 centímetros de espessura, pesando cerca de 65 toneladas. O menir de Er Grah seria um dos maiores menires do mundo quando se encontrava totalmente erigido. Hoje, jaz no solo quebrado em quatro partes mas originalmente deveria atingir uma altura de 18,5 metros, o equivalente a um edifício com mais de seis pisos.

Encontramos ainda nesta região a igreja de São Cornélio, com um tecto pintado que acompanha toda a nave e um altar Renascentista de pedras brancas e negras. Nesta igreja realiza-se a celebração anual do Perdão de São Cornélio, uma cerimónia muito curiosa que ocorre tradicionalmente no segundo Domingo de Setembro. Os animais de gado são reunidos em frente à igreja para uma bênção junto da imagem do Santo, seguindo depois em procissão até à fonte de São Cornélio onde se celebra um rito próprio e se bebe da água da fonte.

Inspiração de artistas, lugar de simbolismo pré-histórico, repositório de antigas tradições, Carnac é um espaço imenso preenchido pelo peso da história. A intensidade deste lugar sente-se, mais do que se compreende, quando percorremos paisagem e caminhamos com vagar lado a lado com as enormes pedras erigidas há mais de quatro milénios.

_________

Texto escrito por: Arquitecto João Valério

Agende a Sua Viagem

Descreva as Actividades e Locais que pretende visitar e receba um orçamento sem compromisso.

Leave a Reply