A pequena capela de scrovegni deve a sua existência a um problema de consciência resolvido da forma como se resolviam os problemas de consciência na Idade média as tão mal afamadas indulgências materiais.

A pequena capela de scrovegni deve a sua existência a um problema de consciência resolvido da forma como se resolviam os problemas de consciência na Idade média as tão mal afamadas indulgências materiais.

No princípio do Sec. XIV, o catolicismo condenava todo o tipo de actividades ligadas à usura, ou seja, ao empréstimo de dinheiro que envolvesse o seu retorno com juros, partindo da premissa que o tempo só a Deus pertence.  O juro sobre os empréstimos representava aos olhos da Igreja uma apropriação imerecida do tempo: “…a Igreja entende por usura todo o contrato que implique o pagamento de um juro. Daí resulta que o crédito, base do grande comércio e da banca, é considerado interdito. Em virtude desta definição, todo mercador-banqueiro, é, na prática, um usurário…” ( Le Goff , em Mercadores e banqueiros da Idade Média)

Nas Sagradas Escrituras a usura é  reprovada  de  forma inequívoca e no  Novo Testamento a condenação parte do próprio Cristo: “E se derdes emprestado àqueles de quem esperais receber, que merecimento é o vosso? Pois também os  pecadores  emprestam  uns  aos  outros, para  que  se  lhes  faça  outro  tanto. Mas, amai  a  vossos  inimigos;  fazei  bem,  e  emprestai  sem  esperardes  coisa alguma; e a vossa recompensa será grande.” (Lucas, VI, 34-35. Para além da razão dos juros e do tempo que é sequestrado , existe , por parte do Igreja a prevalência  de que  fornecer  crédito  não  equivaleria  a  um  verdadeiro trabalho,  pois  não  cria  e  nem  transforma  nada.  Pelo  contrário,  na  visão  da Igreja, o usurário é quem explora o trabalho dos outros, justamente àqueles a quem empresta.

Voltando a  Le Goff, “ Em  1179,  o  III  Concílio  de  Latrão  limitava-se  a  aconselhar  a  repressão  dos usurários  ‘manifestos’  (manifesti) .. creio que se tratava de usurários que a fama, a ‘reputação’, o murmúrio público, designava como usurários não amadores mas ‘profissionais’ e que, acima de tudo, praticavam usuras excessivas. O IV Concílio de Latrão (1215), ao condenar novamente as usuras dos Judeus, refere-se apenas àquelas que são ‘pesadas e excessivas’ (graves et immoderatas).” Na concepção cristã a figura do avarento é aquela que passa a venerar os  bens  materiais  e  o  dinheiro.  Esse  apego  excessivo  e  descontrolado  pelo dinheiro, a cobiça sem fim pelos bens materiais, tudo isso conduziria a uma espécie de idolatria. Deus seria colocado em segundo plano.

Com a reforma gregoriana começa a haver um temor generalizado a respeito do destino póstumo das almas e a penitência deixa  de  ser  uma  exclusividade  do  mundo  monástico.  Os usurários  dos  séculos  XII  e  XIII  não arrependidos  passam a ser uma escassa minoria, o que reforça  o medo  entre a burguesia de  uma  sentença  definitiva.  Neste  sentido,  quando  a ideia de  purgatório  surge  em  fins  do  século  XII,  não  surge  apenas  para  “limpar o Inferno”,  mas  sim  para representar  uma  possibilidade  de  salvação  através  do  sincero arrependimento e da reparação do mal mesmo  que  mediante  contrição  e  restituição,  em vida,  ou  até,  após  a  morte do que se considerava uma certa usurpação.  “A  duração  desta  permanência  dolorosa  no purgatório  não  depende  só  da  quantidade de  pecados  que  ainda impendem sobre eles na hora da morte, mas também do afeto dos seus próximos. Estes (…) podiam abreviar sua permanência no purgatório pelas suas orações, as suas oferendas, a sua intercessão…”( Le Goff )

Nos finais do séc.XIII, os Scrovegni eram uma das famílias mais poderosas de Pádua   cuja riqueza se fundava precisamente na prática da usura. Reginaldo Scrovegni, a figura central da família, tornara-se num usuário profissional, um “manifesto”, sabe-se, inclusive,  que  costumava  cobrar  100%  sobre  o  valor  emprestado. Quando morre, todos os bens transitam para o seu filho Enrico e, este, temendo as tormentas da alma do pai no purgatório decide mandar construir uma capela nos terrenos anexos da propriedade e consagra-a à Virgem Maria.  A importância da construção da capela traduz-se no renome dos artistas contratados para esse empreendimento: Giovani Pisano (c. 1250-1314) para as esculturas e Giotto de Bondone (c. 1266-1337) para o conjunto de afrescos. Considerados como os mais talentosos artistas da região, cada qual na sua arte, Enrico, certificou-se da contrição da alma do pai e exibiu o poder da família com a presença de dois ilustres artistas.

A capela dos Scrovegni , é um edificio discreto e até austero no seu exterior, no entanto, Giotto decidiu aproveitar-se dos planos abertos do interior, sem traves, colunas  ou outros impedimentos para construir um enorme mural, pintando  dezenas de quadros com as vida da Virgem e de Cristo e  um Juízo Final. Para além do impacto pictórico em especial no azul celeste que se tornou no azul de Giotto, a estrutura das pinturas parece obedecer às preocupações de Enrico, abordando questões como a injustiça, a avareza ou a contrição. Existem pormenores que destacam os aspectos ligados a Inveja caracterizada por um indivíduo segurando uma bolsa enquanto arde em chamas e é picado por uma serpente que surge de sua própria boca ou a  importância  dada  a  São  Joaquim, pai da Virgem Maria,   conhecido  pela  tradição  apócrifa como um rico  mercador até ao interminável  número de  mercadores na  cena da fuga  para  o  Egito. Nas paredes laterais da capela temos, frente a frente  representadas as sete Virtudes e os sete Vícios. Giotto preencheu toda a capela com pormenores que envolvem a Salvação, o Juízo Final, a natureza humana com os seus vícios e virtudes e sobretudo apresentou-nos toda esta obra de uma forma mais próxima, mais real, se quisermos, humanizou não só as figuras como a sua representação. Giotto apresentou em cada cena, em cada detalhe, a relação entre a vida na terra e a vida depois da morte.  

No seu testamento, Enrico parece ter aprendido a lição e desprende-se dos seus bens materiais, dando instruções  para  que  a  capela  jamais  seja  vendida  e expressa o seu desejo de ser sepultado nela. Dedica a capela à Virgem Maria e manifesta o seu desejo de que a capela possa ser visitada pela comunidade.  Enrico, pela sua história de banqueiro, sentia-se injustiçado pela aristocracia paduana, e parece tentar a reconciliação com a comunidade.

Não sabemos se a alma de Reginaldo Scrovegni foi ou não salva pela obra oferecida pelo filho, mas sabemos que a sua memória acabaria por ficar eternizada uns anos mais tarde no Inferno de Dante que se refere a ele aproveitando-se das armas da família Scrovegni, comparando-o a uma porca azul que não pára de engordar.

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