A visitar – Os Embaixadores de Hans Holbein

Em 1533, ano em que o quadro foi pintado, a Europa vivia numa enorme convulsão; este foi o ano em que Henrique VIII se casou com Ana Bolena, apesar da sua esposa Catarina de Aragão ainda estar viva. Henrique VIII solicita a anulação do casamento com Catarina, despojando-a dos seus bens de rainha e tornando-se mais tarde a “princesa viúva”. Este facto é reconhecido por muitos historiadores como o momento para o início da separação com o poder Papal de Roma levando a Inglaterra para o protestantismo (a Santa Sé e os reinos aliados nunca aceitaram a anulação do casamento com Catarina).

Afinal quem são os embaixadores?

Durante anos não se soube a que embaixadores ser referia o quadro de Hans Holbein. Em 1900, Mary F. S. Hervey publicou Holbein`s Ambassadors: The Picture and the men e identifica as misteriosas personagens. Do lado esquerdo está o homem que solicita a criação do quadro, Jean de Dinteville. Ele era o embaixador de Francisco I, Rei de França. À sua direita, o seu amigo Georges de Selve, também ele francês. Os trajes mais simples e sóbrios indicam ser uma figura do clero, reconhecido mais tarde como Bispo de Lavaur.

Jean de Dinteville, o embaixador francês do quadro, era um diplomata bastante novo, erudito, educado e muito influente junto da corte. Como representante de França, é uma figura central no conflito entre dois mundos que se preparavam para entrar em conflito. Jean de Dinteville era a correia de ligação entre a administração francesa e inglesa. Sabemos hoje pelas cartas que trocou que Jean de Dinteville não gostava de viver em Inglaterra, desejava voltar para França, finalizar as obras do seu Châteaux e sobretudo sofria de uma doença crónica que o clima húmido de Inglaterra não ajudava. Acabaria, no entanto, por ficar muito mais tempo do que desejaria e é durante a sua segunda missão diplomática aquando dos preparativos para o casamento de Henique VIII com Ana Boleno que o quadro é realizado.

Para além dos aspectos que envolvem toda a técnica da cor, da exuberância e magnificência dos tecidos, com os volumes e os pormenores que revelam o requinte das roupas, sobressaem desde logo a pose do embaixador Jean de Dinteville, num contraste com a silhueta sóbria do seu amigo. Ambos trajam de forma elegante, um de forma expressiva, o outro de forma dominada. O quadro está, no entanto, cheio de sugestões e mensagens e representa de uma forma sublimar o momento político e espiritual da época.

Divido em três grandes partes pelas três prateleiras que suportam os diversos objectos e no qual as duas figuras se recostam, encontramos os elementos mais sugestivos da pintura. Na primeira base da prateleira (foto1) observamos toda uma série de objectos ligados à astronomia, ao céu enquanto representação do paraíso. Os objectos apresentam-se descompassados entre si numa sugestão de caos e confusão no mundo. A ciência, apesar da sua importância não nos consegue dar respostas únicas e substituir-se em definitivo ao poder divino.

Na segunda prateleira (foto2) encontramos várias mensagens do pintor, desde logo um globo terreste invertido com a imagem do local onde se situava o desejado Châteaux de Jean de Dinteville, por baixo do globo um livro de matemática aberto numa página com divisões. Junto a Georges de Selve, um alaúde com uma corda partida e o livro luterano dos hinos. É provável que o autor tenha incluído o livro aberto como símbolo da tentativa do futuro Bispo na luta pela unificação e paz entre luteranos e católicos. Esta segunda prateleira é toda ela dedicada à política e religião, realçando a desarmonia, a divisão e a luta entre reinos e ramos do cristianismo.

Na parte inferior (foto3), o elemento mais perturbador e estranho do quadro apresenta-nos um crânio numa prespectiva anamórfica, significa que apenas visto do lado direito se consegue visualizar por inteiro o crânio. Existem várias teorias para a sua inclusão no quadro. A distorção pode ser uma piada sombria -não importa o quanto tentemos evitar olhar para ela, a morte virá para todos nós. Outra teoria sugere que a pintura deveria ficar suspensa numa escada e a sua visualização seria progressiva, permitindo que os espectadores descobrissem gradualmente a surpresa. Provavelmente a teoria mais plausível terá a ver com a forma que o autor encontrou para relacionar que apesar das divisões, caos e separações tudo acaba com a morte.

Há um outro objeto (foto 4) que, embora não esteja à vista de todos, está inteligentemente escondido e pode fornecer algum consolo. É o crucifixo no canto superior esquerdo. Quase invisível por trás da cortina verde, mas o símbolo da salvação ainda está lá. Apesar de toda a discórdia no mundo, caos e separações, apesar de todos nós inevitavelmente termos que morrer, há esperança na salvação em Cristo e na vida eterna.

O quadro, exposto no The National Gallery Museum em Londres é uma boa síntese e uma imagem de uma época e de uma circunstância histórica que remete para uma série de acontecimentos que tiveram influência na história da Europa. Hans Holbein enquadra na figura dos Embaixadores a imagem política e religiosa da Europa no séc. XVI. É uma síntese e um exemplo de um quadro que aparentemente simples e sem grande história, acaba por ser o princípio da arte enquanto herança e testemunho da hihttps://www.nationalgallery.org.uk/paintings/hans-holbein-the-younger-the-ambassadorsstória da humanidade.

Pode ser visto e revisto no site do museu com uma boa e mais aprofundada explicação por parte da curadora do museu em:

https://www.nationalgallery.org.uk/paintings/hans-holbein-the-younger-the-ambassadors

Confira as imagens mencionas no texto

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