Gdansk, uma cidade de tijolo e mar

As paredes exteriores em tijolo vermelho, austeras e pesadas, não deixam adivinhar o interior branco e luminoso da catedral de Santa Maria. Localizada na zona antiga da cidade de Gdansk, no Norte da Polónia, é famosa por ser uma das maiores igrejas de tijolo do mundo, possuindo algumas paredes com mais de dois metros de espessura. De tal forma assim é que, para apreciar devidamente a sua verdadeira dimensão e não sermos esmagados pela verticalidade, temos que afastar-nos. Se o exterior impressiona e nos agarra ao chão pela volumetria imponente, o interior é, pelo contrário, lugar de elevação.

Os pilares e abóbadas brancas (foto1) , nervuradas, são de uma elegância que atrai o olhar para o alto; os vitrais, de grande simplicidade, em vidro incolor, criam uma atmosfera despojada apenas pontuada pelas pinturas, pelo retábulo (foto2) dourado em tríptico do altar mor e pelas diversas obras de arte em tons de preto e dourado. No coro alto, construído quase junto à abóbada, encontra-se um órgão originalmente fabricado no século XVII para a igreja de São João e transferido para a catedral após a Segunda Guerra Mundial, em substituição do órgão existente que havia sido destruído.

O relógio astronómico do século XV, junto ao altar mor, tem um mostrador de grande complexidade com indicação da data e hora, bem como informações astronómicas do sol, lua e constelações e ainda um calendário de santos. Um sino é tocado a cada hora por Adão e Eva e, ao meio dia, um sistema mecânico faz com que as figuras de Adão e Eva, os três Reis Magos, os Apóstolos e a Morte percorram a frente do relógio.

A história política de Gdansk é turbulenta e a sua arquitectura testemunha esta passagem das diferentes épocas. No século XIV, a cidade passa pela integração num dos ducados da Polónia e pela invasão dos cavaleiros Teutónicos e, em meados do século XV, pela integração no reino da Polónia. Destas épocas são sobretudo os registos arqueológicos que fazem prova da cidade, datando a sua ocupação inicial pelo menos do século X.

Em Maio de 1457, Casimiro IV atribui privilégios especiais à cidade, concedendo autonomia administrativa, legislativa e comercial, e assegurando ainda a protecção militar da cidade. É neste contexto que floresce o comércio e a arte, transformando a cidade num dos principais portos do Báltico. Ainda hoje é o principal porto da Polónia. O período dourado de Gdansk estende-se dos séculos XV a XVII, incentivando a construção de um centro urbano movimentado, com edifícios de grande nobreza e complexidade decorativa, fruto da centralidade comercial e artística vivida na cidade. A zona central é composta por edifícios que testemunham a inspiração holandesa, flamenga, francesa e italiana. O edifício da Câmara Municipal, na rua principal (Ulica Długa), destaca-se no panorama urbano como um volume compacto em tijolo de diferentes tons de vermelho e janelas altas, e uma torre central, também em tijolo, encimada por um relógio e um coroamento em bronze e dourados. A rua principal é rematada nos extremos por portas monumentais: a Ocidente a Brama Wyżynna, porta de entrada principal, projectada pelo arquitecto flamengo Willem van den Blocke como um grande volume em pedra em dois níveis: uma base rusticada, com arcos, e um topo decorado com brasões heráldicos; a Oriente, no extremo oposto da rua, encontramos a porta Zielona Brama, composta por um edifício maneirista de influências flamengas e elegante fachada em pedra e tijolo, cujos arcos no piso inferior permitem a passagem entre a rua principal e o rio.

No século XVIII, a cidade é assolada por guerras e entra em lento declínio, acabando por ser anexada pela Prússia no final do século e, mais tarde, pelo império alemão. A estação ferroviária principal da cidade, desta época, apresenta uma fachada pitoresca em alvenaria de tijolo e cunhais em pedra, uma torre encimada por um relógio e pináculos, e grandes vãos semicirculares.

Ao longo do século passado, a cidade testemunhou também alguns dos eventos mais marcantes a nível europeu e mundial, como a batalha de Westerplatte, que assinalou o início da Segunda Guerra Mundial ou o movimento Solidarność, liderado nos anos 80 pelos trabalhadores dos estaleiros navais na luta contra o regime comunista. Estes pontos chave da História são assinalados no recente Museu da Segunda Guerra Mundial e no Museu Europeu Solidarności, este último construído em chapas de aço Corten, enferrujadas, que evocam os cascos dos navios produzidos nos estaleiros navais.

No centro histórico subsiste a grua medieval (Brama Żuraw Foto 3), flanqueada por duas torres e com uma curiosa estrutura central em madeira onde se encontra o sistema de elevação com roda, a partir de onde eram feitas as cargas e descargas e se erguiam novos mastros nos navios. Hoje pendura‑se tranquilamente sobre as águas do Motława, fazendo as delícias dos habitantes locais e dos viajantes que nessa frente de rio revivem o burburinho das trocas comerciais de séculos anteriores.

Gdansk possui uma imensa riqueza arquitectónica e artística, justificando uma visita demorada para apreciar a vida urbana de uma cidade com história, as fachadas intrincadas e as obras de arte dispersas pelas ruas antigas, expressões do dinamismo cultural que os séculos foram inscrevendo nesta pequena cidade feita de tijolos, bronze e uma intensa luz nórdica, numa enseada de cultura abrigada entre o rio e a imensidão do Báltico.

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Texto escrito por: Arquitecto João Valério

Gdansk

Resumo de Viagem

Motivos: Catedral de Santa Maria.

Lugares marcantes: Fachadas dos prédios em Gdanskd; Orgão da Catedral de Oliwa; Basílica de Santa Maria e Tríptico de Memling

Esforço Físico: Fácil

20%

Nº de Pessoas: 20 a 45

50%

Dias: 4

40%

A Nossa Sugestão

As fachadas dos prédios em Gdansk

Descrição:

A subtileza da cidade reflecte-se nos edifícios, nas suas estruturas e na sua “arrumação” com uma mistura de cores vivas dando uma forte impressão de harmonia a todo o conjunto. A maioria de toda esta construção e decoração é relativamente recente e reporta ao final da segunda Guerra.

Noventa por cento de Gdańsk foi destruída na Segunda Guerra Mundial (então conhecida como a “Cidade Livre de Danzig”), de facto, os primeiros tiros da invasão da Polónia foram disparados a apenas alguns quilômetros de distância da Cidade Velha. Após o fim da guerra, houve um enorme debate sobre como reconstruir a cidade. O forte sentimento anti-alemão queria livrar a cidade de todos os seus resquícios (antes da guerra, os alemães constituíam a grande maioria da população) Uma homenagem aos velhos tempos? Uma arquitetura modernista? Realismo socialista (soviético)?

Todas as referências às influências alemãs, como estilos arquitetónicos e nomes de ruas, foram apagadas. As autoridades decidiram, entre outras acções, enfatizar os laços históricos com a Holanda e a Flandres (norte da Bélgica), uma relação que nasceu e floresceu no século XVI. O resultado da reconstrução concretizou-se numa recriação que lembra cidades como Amesterdão ou Antuérpia. Uma reconstrução que realça a cor, a harmonia e a simetria dos edifícios e das ruas.

Orgão da Catedral de Oliwa

Descrição:

Anjos, um sol móvel, luas e estrelas, uma delicada tecelagem de hera e flores. No centro – um belo vitral que mostra Maria com o Menino. Uma cascata de sons que imita pássaros chilreando, respingos de água, zumbido de abelhas e até uma tempestade de trovões! O órgão Rococó monumental com um som incrível e a escultura excepcionalmente rica da caixa é uma maravilhosa decoração da Catedral de Oliwa. Os seus criadores – os mestres construtores Jan Wulf e Friedrich Rudolf Dalitz levaram mais de 25 anos a construírem-no. Combinado com os outros dois instrumentos, o pequeno órgão no transepto sul e o órgão contemporâneo perto da saída da catedral ao todo têm um total de 7.876 tubos. O seu som pode ser desfrutado durante os seus curtos concertos diários , bem como no famoso Festival Internacional de Música de Órgão e no concerto final do Festival Mozart, Mozartiana. A Catedral de Oliwa, com as suas duas torres esguias características e erguida como igreja cisterciense no século XIII enquanto basílica gótica de três naves, foi construída em planta de cruz latina, medindo 107 metros sendo a maior igreja da Polônia.

Basílica de Santa Maria

Descrição:

A Basílica de Santa Maria é considerada umas das três maiores igrejas de tijolos do mundo. A abóbada interior suporta 37 janelas, mais de 300 lápides e 31 capelas. Pode acomodar até 25.000 pessoas, o que foi útil durante o período da lei marcial entre 1981 e 1983, quando membros do movimento Solidariedade procuraram refúgio aqui. Pode aceder-se por meio de sete portões com nomes tão intrigantes como Porta do fabricante de bolsas. Curiosamente, o escultor que esculpiu o crucifixo de Cristo pregou o seu genro errante numa cruz para adicionar realismo à sua obra. A Basílica foi seriamente danificada durante a Segunda Guerra Mundial e os afrescos originais foram caiados de branco.

Edifico da Câmara e a Apoteose de Gdansk

Descrição:

Construído na Idade Média, o edifício da Câmara no seu gótico original, sofreu um incêndio em meados do século XVI, sendo o reconstruída ao estilo do maneirismo holandês: a Grande Câmara do Conselho, a Pequena Sala do Conselho chamada Sala de Inverno, bem como o Grande Salão do Tribunal denominado Salão Branco, atestam o poder de Gdańsk naquela época e o seu papel na Europa. O relógio de sol situado num dos cantos lembra a passagem implacável do tempo com a máxima latina “As sombras são os nossos dias”. Este é o edifício secular mais impressionante de Gdańsk, enriquecido com um magnifico carrilhão.

Na Câmara do Conselho fazem-se notar imperadores e políticos romanos ao lado de figuras mitológicas e personificações de conceitos abstratos – Alexandre o Grande, os reis judeus: Josafá, Davi e Salomão, até mesmo o assassino de César Brutus.

Com 25 pinturas de Isaac van den Blocke, o ponto culminante da expressão da pintura é o teto. A pintura central, mais importante com uma mensagem multidimensional, conta simultaneamente muitas histórias sobre a poderosa cidade. A “Apoteose de Gdańsk” – o centro da sua história, apresenta Gdańsk como uma cidade ideal, a escolhida, sob a proteção especial de Deus.

Tríptico de Memling

Descrição:

Esta obra de arte bíblica foi encomendada por Jacopo Tani (1415-1492), um banqueiro florentino e representante da Família Médici em Bruges. Tani pretendia o trabalho para o altar da capela de sua família no igreja da Badia Fiesolana em Florença, e calculou-a para coincidir com o seu casamento em 1466. Após a conclusão, as pinturas do painel foram expedidas por navio de Londres para o Porto Pisano em 1473. Acontece que quando estava na costa holandesa, o navio foi apreendido por um corsário a soldo da Liga Hanseática que estava então envolvido no bloqueio de Comércio inglês. A pintura foi confiscada e levada para Danzig (Gdansk), onde ficou para sempre.

O tríptico de Menling refere-se a uma das cenas bíblicas mais referenciadas – a história do “Juízo Final”. Derivada das porções mais apocalípticas do texto, a narrativa do “Juízo Final” ou “O Dia do Senhor” decreta que, após a segunda vinda de Cristo, todos na Terra serão avaliados pelas mãos de Deus. Cada pessoa será considerada “boa” ou “má” e, a partir desse julgamento, será enviada para o Céu, Purgatório ou Inferno. As mais famosas e conhecidas pinturas do juízo final talvez sejam as gravuras de 1558 de Pieter Bruegel ou a metade do “Juízo Final” do díptico de Jan van Eyck.

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