O que faz uma igreja impecavelmente preservada num sótão de um prédio virado para o canal velho e a paredes meias com a Disneylândia adulta do bairro vermelho de Amesterdão?

O que faz uma igreja impecavelmente preservada num sótão de um prédio virado para o canal velho e a paredes meias com a Disneylândia adulta do bairro vermelho de Amesterdão? E, sobretudo, que interesse tem uma singular igreja numa cidade tão cheia de museus, cafés, canais e ambientes cheios e vida. Tem uma história e é parte da história da cidade.  

A história da Igreja confunde-se com a emancipação e posterior independência dos países baixos do poder de Espanha e sobretudo do domínio dos Habsburgos. Até aos finais do séc.XVII, os países baixos, faziam parte do império dos Habsburgos que dominavam quase metade da Europa, sendo que a hoje protestante Amesterdão era então uma comunidade católica.

Herdeiro da casa de Orange-Nassau Guilherme I de Orange torna-se em 1559, regente dos Países Baixos, acabando por revoltar-se contra o domínio religioso, fiscal e político dos Habsburgos. Incita maior autonomia  e impulsiona a revolta contra Felipe II de Espanha (posteriormente Filipe I de Portugal) promovendo a primeira tentativa de separação e respectiva independência dos Países Baixos.

A vida de Guilherme I acaba por estar fatalmente ligada a Portugal – o seu principal opositor militar, Alexandre Farnense, Duque de Parma, é chamado por Felipe II de Espanha com a incumbência de organizar as tropas na unificação do Reinos de Espanha com Portugal e que levaria a perda de independência de Portugal. Guilherme I de Orange acabaria por morrer em 1584 e só em 1648 com o tratado de Vestefália, os Países Baixos se tornariam independentes.  

Com a independência dos Países Baixos, recuaram e proibiram-se os costumes e hábitos religiosos ligados aos antigos soberanos. O catolicismo foi banido enquanto religião e proibidos todos os actos públicos quer fossem celebrações, casamentos ou baptizados. O corte com o passado representava uma demonstração de poder e de ruptura com o que era considerado uma corrente religiosa contrária ao progresso. Os historiadores não são consensuais, uns defendem que houve perseguição e abolição total do catolicismo, outros defendem que houve uma proibição tolerada. A verdade é que a partir desta data as Igrejas foram encerradas e as respectivas celebrações foram abolidas publicamente. Proibidas as celebrações públicas, as famílias católicas decidem manter os rituais, fazendo nascer cerca de 60 Igrejas clandestinas em prédios insuspeitos e anónimos. Sem indicações nas proximidades, sem crucifixos nas fachadas e sem qualquer sinal da presença de Cristo as igrejas clandestinas tornam-se lugares centrais na vida comunitária do catolicismo.

A Igreja do Senhor enquadra-se nessa perspectiva. Escondida num sótão de um prédio de 3 andares num dos bairros mais movimentados e turísticos de Amesterdão, nada nas redondezas indica o valor e a importância desta igreja. Mandada construir por um comerciante decidido a manter a sua fé bem viva de Amesterdão, a Igreja é parte de um prédio do séc. XVII. Bem preservada, é talvez umas das melhores memórias vivas desse período. Hoje, o prédio está transformado num museu com o mobiliário, a disposição e a estruturação de um modelo de vida da época. O interesse da Igreja, foca-se mais na sua história e sobretudo na vivência do catolicismo durante os primeiros anos do novo reino, no entanto, a surpresa do lugar mantém-se ainda hoje em contraponto ao bulício e alvoroço de uma cidade cheia de turistas ávidos do que está na moda.    

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