Junto da fronteira com a Suíça e com a Itália encontramos Flaine, uma estância de montanha que é simultaneamente lugar de desportos de neve e idílio de arte e arquitectura moderna.

Junto da fronteira com a Suíça e com a Itália encontramos Flaine, uma estância de montanha que é simultaneamente lugar de desportos de neve e idílio de arte e arquitectura moderna. O local foi escolhido em Setembro de 1959 pelo arquitecto suíço Gérard Chervaz e pelo geofísico francês Éric Boissonas durante uma expedição no Massif du Giffre. Nesta viagem improvável por paisagens inóspitas e rochosas procurava-se o lugar ideal para implantar uma estação de montanha diferente de todas as que existiam. A ideia central era construir uma estância onde a arte e a arquitectura tivessem absoluto destaque. Espantosamente, Flaine mantém ainda hoje em dia a sua singularidade, apesar das muitas estâncias que foram nascendo pelo mundo fora nas décadas seguintes. Éric e a sua esposa, Sylvie Boissonas, conseguiram com as suas ideias criar um espaço ímpar porque a estética foi desde o início a primeira prioridade, antes sequer da rentabilidade a curto prazo. O projecto do conjunto urbano e de grande parte dos edifícios resultou de uma encomenda a Marcel Breuer, famoso arquitecto da Bauhaus, cuja obra já na época se encontrava dispersa pela Europa e Estados Unidos da América e publicada nas mais prestigiadas revistas de arquitectura.

No Verão, tempo de descanso face ao bulício dos desportos de Inverno, floresce a vegetação das grandes paisagens montanhosas e uma luz intensa ilumina todo o vale. Deambular pelas ruas de Flaine dá vontade de fazer parar o tempo. No Inverno, o movimento cresce e a arte alia-se aos desportos de neve, num par invulgar mas comprovadamente feliz, testemunhado pelo sucesso que a estação teve desde a sua abertura em 1969. Na pequena cidade podem encontrar-se edifícios modernistas com fachadas facetadas em betão, reminiscentes das escarpas rochosas envolventes. A arquitectura tem aqui um papel central, ainda que de modo discreto e integrado na paisagem; todos os edifícios foram cuidadosamente posicionados de modo a seguir os contornos do terreno natural e as alturas dos volumes foram meticulosamente estudadas para que cada edifício pudesse ter vista desimpedida sobre o vale e montanhas envolventes. A par das preocupações estéticas foram implementadas soluções tecnológicas de ponta para a época, algumas das quais ainda hoje se mantêm actuais, incluindo o primeiro sistema de produção de neve artificial na Europa (instalado em 1973) e uma rede de galerias técnicas que permitem a passagem de infraestruturas subterrâneas por toda a estação sem que quaisquer cabos e condutas sejam visíveis no exterior. Para complementar o ambiente tranquilo e propenso à apreciação da arte e dos desportos de montanha que se pretendia criar, Flaine foi idealizada como um centro exclusivamente pedonal – os veículos são, ainda hoje, estacionados na envolvente em parques e vias de circulação próprias, libertando a maioria do espaço para os visitantes e habitantes de Flaine.

Um dos ex-libris arquitectónicos é visível imediatamente à chegada: o hotel “Le Flaine” que, na extremidade Sul, se pendura sobre o vazio de uma falésia a pique, desafiando a gravidade e sublinhando a forte modernidade que subjaz ao projecto do conjunto. Este hotel e o edifício vizinho, apelidado “Bételgeuse”, foram em 1991 classificados como Monumentos Históricos, destacando a importância que têm para a arquitectura do século XX.

A praça central é um grande museu a céu aberto, com obras de Picasso, Dubuffet e Vasarely. A obra de Picasso “La Tête de Femme” (1991, versão ampliada de uma miniatura original de 1957) revela a exploração tridimensional do estilo cubista que o artista tanto desenvolveu na pintura. Junto ao Centro de Arte encontra-se a escultura de Vasarely “Les Trois Hexagones” (1973), uma composição geométrica em chapa polícroma com mais de cinco metros de altura.

Mas não é só na praça central que é possível encontrar estas obras, já que até em fachadas descobrimos as marcas de artistas, como a obra “Empreintes de cordes” (1986) de Vera Cardot, um conjunto de baixos relevos efectuados directamente na cofragem de painéis de fachada com o betão fresco, representando as constelações que dão nome a três edifícios; ou “Fontaine de Glace” (1974) de Carl Nesjar, uma estrutura em aço inoxidável que no Inverno goteja água, congelando-a em inesperadas formas verticais e arbóreas.

Na lateral da praça principal encontramos ainda uma capela onde se une tradição e modernidade – um volume sóbrio e escultural, composto por três volumes inclinados de linguagem claramente nova, mas revestido com lâminas de xisto à imagem de tantas outras construções tradicionais existentes na arquitectura popular da região. A capela ecuménica acolhe missas e celebrações religiosas, partilhando o espaço com ensaios de música, concertos e conferências em certos momentos do ano. A capela foi também classificada como Monumento Histórico em 2014, atestando a sua modernidade e importância no contexto de Flaine.

Podemos ainda hoje encontrar muito do projecto originalmente construído, bem como novidades introduzidas mais tarde no espírito das ideias iniciais – os edifícios e as obras de arte continuam a ocupar a posição privilegiada, servindo como âncora de um programa muito mais vasto que irradia por quilómetros em redor nas pistas de ski e rotas de caminhada de montanha.

Flaine é uma estância ímpar porque materializa os desígnios felizes e arrojados que a geraram e por isso tornou-se, com todo o mérito, lugar de predilecção de amantes de arte e arquitectura.

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Escrito por: Arquitecto João Valério

Flaine

Resumo de Viagem

Motivos: Arte e arquitectura moderna

Lugares marcantes: Hotel “Le Flaine”; Praça Central; Escultura de Vasarely “Les Trois Hexagones”

Esforço Físico: Fácil

20%

Nº de Pessoas: 20 a 35

50%

Dias: 4

40%

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