O Baptistério de São João é seguramente o edifício mais antigo de Florença. Durante séculos baptizaram-se aqui todas as crianças de Florença. Partimos da história de ornamentação de uma das suas portas para conhecer uma rivalidade e o nascimento de uma nova visão do mundo.  

Existe um certo prazer de marcarmos o começo de tudo com uma verdade muito simples. Em quase tudo na vida, facilita-nos conseguir estabelecer a origem das coisas e se possível marcá-la com datas e lugares.  De acordo com este princípio, não deixa de ser tentador a ideia que o movimento arquitetónico da Renascença possa ter despontado de um concurso e de uma rivalidade entre dois ourives de Florença. Em particular, a disputa pelas famosas portas do Batistério de São João em Florença. Exagerado e redutor, é certo.

O Batistério de São João é quase seguramente o edifício mais antigo de Florença. Durante grande parte da Idade Média estava-se convencido que o edifício seria uma estrutura de origem romana, um templo pagão dedicado a Marte e convertido em tempo cristão, no século IV. Hoje, essa teoria foi posta de lado. A primeira referência documental remonta ao ano 897 e grande parteda decoração clássica de 1128.

Construída para funções civis, acabaria a servir a comunidade cristã da cidade e durante séculos aqui se baptizaram todas as crianças florentinas. Na época, os baptismos eram realizados duas vezes por ano, tendo por essa razão sido construídas três portas para que a multidão a pudesse atravessar e utilizar – os pretendentes ao baptismos e padrinhos entravam pela porta sul e saiam pela porta este em direção ao Duomo já depois de baptizados. Uma dessas portas – porta norte – foi encomendada a sua decoração como oferenda à proteção dos vários surtos provocados pela peste negra. Nesse sentido em 1401 a riquíssima corporação de La Calimala que controlava os negócios da seda em Florença decidiu lançar um concurso para a construção de uma das portas do Baptistério.

O concurso assumiu contornos ambiciosos, com um júri de 34 personalidades, um formato pré-definido de uma peça em bronze dourado e com uma temática delineada – Abraão e o sacrifício do seu filho Isaac. Do confronto resultariam dois finalistas – Filippo Brunelleschi e um quase desconhecido Lorenzo Ghiberti. A disputa marcaria uma rivalidade para a vida e um confronto de ideias dentro de um mesmo movimento que começava a despontar. A discussão ainda é hoje recorrente entre especialistas e historiadores de arte. Quem mereceria mais o premio? E, sobretudo, como é que dois jovens ourives com formalismos e utilizando os mesmos elementos iconográficos de forma tão diferente, participaram na criação de um movimento tão importante como a Renascença.

Na peça apresentada por ambos, convivem os mesmos personagens e estão presentes, a saber, o jovem Isaac nu no altar, o pai Abraão, que está prestes a matá-lo, o anjo enviado por Deus para detê-lo e os dois companheiros de Abraão com o jumento. Em ambos existem também as rochas que indicam a natureza montanhosa do local e o carneiro com os seus chifres emaranhados.  A partir destes elementos, os dois finalistas apresentaram ambientes e perspectivas diferentes.

Recorrendo ao critico Robert Paul Walker de seu livro “The Feud that Sparked the Renaissance”), o trabalho de Brunelleschi é de “longe o mais dramático e perturbador, todos os ângulos, movimentos e emoção são cruos. O seu Abraão é uma figura alta e poderosa, segurando com a mão esquerda o queixo de um frágil Isaac. Na sua mão direita, Abraão segura a faca, empurrando a lâmina para frente com tal comprometimento que o anjo que desce do céu agarra-lhe o pulso no intuito de parar o sacrifício. A história literalmente irrompe do painel, rompendo os limites do quadrifólio gótico dentro do qual deveria estar contida, assim como Brunelleschi rompeu as fronteiras da arte gótica com sua criação”.

“O painel de Ghiberti é mais elegante e mais belo. O seu Isaac é um nu clássico perfeitamente modelado, enquanto Abraão é um homem mais gracioso, o seu braço esquerdo envolvendo os ombros do menino enquanto a sua mão direita segura a faca pairando no ar, como se ele ainda não tivesse tomado a decisão de o sacrificar. O anjo flutua por cima deles, com a palma da mão aberta sobre o cabelo encaracolado e bem penteado de Abraão, sem necessidade de agarrar o braço do pai, mas ao invés disso, é capaz de detê-lo com uma palavra. Toda a cena se desenrola contra uma encosta de montanha em cascata primorosa, tudo perfeitamente contido dentro de sua fronteira do quadrifólio. Enquanto a peça de Brunelleschi demonstra um artista ansioso para forjar uma imagem nova e mais poderosa da realidade, a de Ghiberti demonstra a perfeição magistral da arte, tão notável na sua própria maneira para o tempo, lugar e idade do artista quanto o trabalho de seu rival.

O interessante do confronto das duas obras, é a manifestação de duas interpretações com dramatismos diferentes, recorrendo a elementos distintos, mas que fariam parte de uma nova linguagem e visão de um mundo que se abria.

A obra de Ghiberti é ainda uma transição entre o Gótico tardio – o traje de Abraão, a graça dos gestos, o sabor da linha ondulada, o prazer do efeito decorativo, a busca pela preciosidade – e a nova linguagem que recorre aos elementos clássicos como inspiração -a placidez e contemplação serena, evocando o universo das estatuárias clássicas. Na sua obra, o anjo voa graciosamente, o braço de Abraão está hesitante e toda a cena parece em suspenso, tanto a decoração do altar quanto o corpo de Isaac são totalmente “clássicos” – provavelmente inspirados num Torso de fauno.  Brunelleschi por seu lado apresenta a perspetiva e o relevo como aspectos fundamentais conferindo-lhe uma geometria e um movimento que tornam a cena ainda mais dramática e agitada.

Em ambas a obra é dado ao homem um papel e uma dignidade que parecia perdida, trazendo-o de volta ao centro do interesse artístico. Se Ghiberti retrata o episódio com serena compostura, com Abraão hesitante e indeciso, toda a composição de Brunelleschi já não respira apenas o sentido da fé cristã, mas o sentido dramático da história que surge da responsabilidade do homem em traduzir o plano divino, muitas vezes obscuro para a compreensão da mente racional.

Lorenzo Ghiberti foi anunciado como o vencedor da competição e contratado para concretizar a obra. Existem vários relatos a respeito dessa decisão; que a decisão final tenha sido um empate e Brunelleschi não quis trabalhar e partilhar a obra com Ghiberti, ou que que a obra deste era mais consensual e transitória entre o Gótico e a Renascença, e por isso com mais admiradores, a verdade é que Lorenzo Ghiberti passaria parte dos vinte anos seguintes até finalizar a obra.

O episódio das portas do Batistério entre Lorenzo Ghiberti e Filippo Brunelleschi deu um formal início ao movimento renascentista na arquitectura. Tornaram-se nas primeiras grandes figuras da Renascença e na transição do Gótico na arquitectura. Lorenzo Ghiberti acabaria por ser convidado a construir a outra porta do edifício – obra que seria ainda mais marcante e que Miguel Ângelo rotulou como sendo as portas do Paraíso.  Filippo Brunelleschi depois da derrota saiu de Florença e viveu durante três anos em Roma. Regressou a casa e consagrou-se como um dos maiores e inovadores arquitectos com várias obras em especial uma marcaria toda a Renascença e história da arquitectura – a cúpula da catedral de Florença, a qual curiosamente obrigaria os dois a trabalharem novamente juntos.

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Recomendamos que veja o seguinte VÍDEO acerca dos temas anteriormente descritos

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Resumo de Viagem

Motivos: Baptistério de São João em Florença

Lugares marcantes: Cappella Brancacci; Pallazo Pitti; San Miniato al Monte

Esforço Físico: Médio

50%

Nº de Pessoas: 15 a 20

50%

Dias: 5

60%

A Nossa Sugestão

Cappella Brancacci

A capela e as suas pinturas foram financiadas por Fillippo Brancacci, comerciante de sedas e diplomata que a encomendou em 1423. Todo o conjunto foi concluído meio século mais tarde por Filippino Lippi. Os frescos trouxeram um novo sentido à ideia de realismo e um domínio da perspectiva que superaram tudo o que existia até então na Itália. Vasari refere que “ os escultores e pintores mais célebres tornaram-se excelentes por estudarem a sua arte” e até Miguel Ângelo e Leonardo da Vinci visitaram a sua capela para estudarem a sua técnica.  Passou por várias tormentas, quando os Medici enviaram Brancacci para o exilio, os carmelitas eliminaram os seus retratos da capela. Em 1680, o novo protector da Igreja, Francesco Ferroni, considerou que aqueles homens ridículos, com as vestes antiquadas deveriam ser apagadas e em 1771 um incêndio arruinou grande parte das pinturas tendo sido restaurados recentemente.

Pallazo Pitti

A construção do palácio iniciou-se em 1458, por encomenda do mercador e banqueiro Luca Pitti. A intenção era construir que desafiasse os Médici, seus rivais nos negócios. Julga-se que o projecto original tenha sido entregue a Brunelleschi. O projecto terá enfraquecido as finanças de Pitti e ironicamente terá sido comprado, mais tarde pelos Médici. Cosme I ligou a sua nova casa às oficinas dos Medici, para tal encomendou a Giorgio Vasari um corredor e que ainda hoje passa pela ponte Vecchio.
O palácio acolheu a família Medici durante três séculos. Após a unificação de Itália em 1860, serviu de sede aos reis da Casa de Saboia no período em que Florença foi a capita do Reino de Itália. Com dois museus no sei interior, em especial a Galeria Palatina inclui quadros de Rafael, Ticiano, Caravaggio e Van Dyke.

San Miniato al Monte

Um dos primeiros mártires de Florença, foi torturado durante a vaga de perseguições do imperador Décio (249-251) contra os cristãos. De acordo com a tradição depois de ser decapitado, o santo agarrou na própria cabeça e levou-a, depois de atravessar o rio Arno, até à localização actual de San Maniato al Monte, em cujas proximidades teria vivido como eremita. No local ergueu-se uma capela em memória do santo, mas a basílica de fachada de motivos geométricos recoberta a mármore verde e branco, só veio a erguer-se no séc. XI e foi sucessivamente acrescentada até ao século XIV.  A Cripta guarda o túmulo de São Minianto e na ala norte encontra-se a Capela do Cardeal de Portugal. Trata-se de uma oportunidade para conhecer um pouco da vida de quase desconhecido D. Jaime de Portugal (1433-1459).

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