Desde a primeira fundação da sua catedral há mais de mil anos, sobre a cripta de São Tiago, Compostela recebe milhões de peregrinos de distantes da Europa. Poucos peregrinos sabem, contudo, as tensões políticas que marcaram as relações entre as dioceses de Braga e Compostela na reivindicação da verdadeira primazia diocesana na Península Ibérica.

O caminho medieval de Santiago tem um dos lugares mais importantes na história da peregrinação, rivalizando apenas com o túmulo de São Pedro em Roma. A sua história começa nove séculos depois de Cristo, quando o monge Pelaio segue uma luz misteriosa durante a noite e descobre o corpo do apóstolo Tiago, confirmando-se a crença regional de que, depois do martírio do santo em Jerusalém no ano de 45 a.C., o seu corpo teria sido trazido num barco que navegou sem rumo até às costas da Galiza. A descoberta das suas relíquias e a fundação de uma catedral sobre o seu túmulo foi a viragem para a Igreja galega, trazendo uma nova relevância religiosa, mas também económica e política ao reino peninsular.

Com a criação oficial da diocese compostelana em 1095, os bispos Braga sentiram-se obrigada a estrategizar, de maneira a não perder para a sé galega o prestígio religioso e político que já tinham vindo a conquistar desde há séculos. Ambas queriam ser as dioceses mais poderosas da península, fazendo uso da figura de Santiago como argumento para a legitimação da autoridade de cada uma. Se Compostela conquistou este poderio através da posse das relíquias do apóstolo, Braga apoiou-se no argumento de que Santiago tinha estado directamente envolvido na fundação da sua diocese e na nomeação do seu primeiro bispo, São Pedro de Rates, promovendo para isso o culto deste santo bracarense – “descobrindo” também as suas relíquias no século e financiando a reconstrução da igreja dedicada a este santo.

Intimidados pelas táticas de auto-promoção e jogadas políticas de Braga, Compostela, a comando do seu bispo, Gelmiréz, planeou um assalto, pela calada da noite, às relíquias de santos mais preciosas da diocese bracarense, de maneira a atacar o prestígio de Braga. Deve ter-se em conta que, durante a Idade Média, a posse das relíquias de um santo suficientemente relevante poderia significar a ascensão política de uma dada diocese. Assim, em 1102, sob a pretensão de que o bispo Gelmiréz iria realizar uma visita oficial à diocese bracarense, depois de visitar e abençoar as principais igrejas de Braga durante o dia, o bispo e os seus homens organizaram-se, durante a noite, invadindo as igrejas de São Cucufate, Santa Susana e São Frutuoso, roubando as relíquias de cada um destes santos e levando-as para Braga, justificando este assalto como necessário, pelas alegadas pobres condições em que se encontravam estes locais sagrados. Este foi apenas o início de uma história de tensão entre ambas as dioceses que, até ao dia de hoje, se mantém.

Cambridge

Resumo de Viagem

Motivos: Os conflitos religiosos e políticos entre Braga e Compostela | A ligação de ambas as dioceses ao apóstolo Tiago

Lugares marcantes: Igreja de São Pedro de Rates; Catedral de Braga; Catedral de Santiago de Compostela

Esforço Físico: Médio

30%

Nº de Pessoas: 15 a 35

50%

Dias: 6

40%

A Nossa Sugestão

Póvoa de Varzim: Igreja de São Pedro de Rates

Resumo: Localizada na Póvoa de Varzim e a cerca de 40 minutos de Braga, esta igreja é apenas um dos monumentos que escolhemos para dar a conhecer nesta viagem dedicada a Braga e Compostela. Destacando-se como uma obra-prima do românico português, este monumento foi revolucionário em Portugal pelo novo estilo com que foi reformado nos séculos XI e XII, por influência da nova Ordem de Cluny que dava entrada em Portugal – tão relevante para a construção e afirmação do novo reino português – mas também por influência de Braga, que queria promover uma campanha a favor do culto do “Santiago” português, São Pedro de Rates. Se Compostela argumentava a primazia ibérica pela posse das relíquias de Santiago, Braga argumentou contra Compostela e até contra a diocese de Toledo a primazia na reivindicação de São Pedro de Rates como o primeiro bispo da Península, nomeado e sagrado pelo próprio apóstolo Tiago. Esse São Pedro de Rates, o “primaz das Espanhas”, é ainda hoje a referência para todos os bispos bracarenses, que ostentam o mesmo título que o santo. Juntamente com a descoberta lendária do corpo de São Pedro de Rates, numa narrativa em muito semelhante àquela que se conta sobre a descoberta do corpo de São Tiago, estavam assim todos os ingredientes para a promoção de um novo culto bracarense reunidos.

Braga: Catedral e museu

Resumo: A arquidiocese de Braga, profundamente envolvida na cristianização do território nacional e da Península Ibérica, tem uma história que directamente se envolve, como já vimos, com as narrativas sobre o apóstolo Tiago. A imponência, história e espiritualidade da arquidiocese bracarense materializa-se na sua catedral, com uma história igualmente longa. Embora a existência da arquidiocese recue pelo menos até ao século IV, a sua catedral tem uma existência mais recente. Monumento do românico e do gótico português, a catedral de Braga é um vasto complexo arquitectónico que integra objectos da maior valiosidade – hoje todos belissimamente expostos no Museu do Tesouro da Sé de Braga – uma bela oportunidade para se visitar para quem se interessa pelos tesouros catedralícios, existindo neste peças que recuam até antes do século X – mas também túmulos prestigiados, como os do conde Henrique e de Dona Teresa. A existência do actual edifício regista-se desde 1128. Sublinham-se a relevância da própria igreja da catedral, mas ainda da Capela de São Geraldo, a dos Reis, onde estão o túmulos dos pais de Afonso Henriques, e a Capela de Nossa Senhora da Glória, com o fantástico túmulo de D. Gonçalo Pereira.

Braga: Museu dos Biscainhos

Resumo: O Museu dos Biscainhos está instalado no palácio do mesmo nome, datado do século XVII. O palácio foi, ao longo dos séculos, casa dos condes de Bertiandos e dos viscondes de Paço de Nespereira, cuja vida aristocrática e luxuosa se reflecte no edifício e nos seus interiores. Dos tectos amplos e glamorosos aos jardins barrocos, a visita a este palácio permite conhecer o quotidiano da nobreza setecentista. Já o Museu dos Biscainhos, nascido neste palácio em 1978, permite penetrar com mais profundidade neste quotidiano nobre, através da exposição de colecções de mobiliário, ourivesaria, cerâmicas, vidros e têxteis que se estendem do século XVII ao XIX.

Santiago de Compostela: Catedral e museu

Resumo: Um dos maiores centros de peregrinação do mundo, Santiago de Compostela, tem uma catedral que corresponde em tamanho, beleza e importância ao prestígio que este local sagrado, ligado ao túmulo do apóstolo Tiago, conquistou ao longo dos séculos. A sua história começa no século IX quando, depois da descoberta do túmulo do apóstolo, se mandou construir a primeira igreja dedicada ao santo. O rei Afonso II das Astúrias, que ordenou a sua construção, visita a primeira igreja – tornando-se o seu primeiro peregrino –, à volta da qual começa a fixar-se uma população. Quando a notícia da descoberta do túmulo se espalha pela Europa, peregrinos começam a afluir a Compostela e as rotas estabelecem-se. Durante os séculos seguintes, a catedral vai sofrendo transformações e ampliações que pudessem respondem às multidões que ali vinham peregrinar.

Santiago de Compostela: Museu das Peregrinações e de Santiago

Resumo: Para complementar esta programa sobre o envolvimento político e religioso de Braga e Santiago de Compostela na história das peregrinações e do apóstolo Santiago, nada como visitar um museu que ambiciona transmitir, através da pedagogia museológica, a importância do culto do apóstolo no desenvolvimento das rotas peregrinatórias. Ao longo de oito salas, objectos, documentos e imagens dão a conhecer este fenómeno desde 1951.

Santiago de Compostela: Universidade

Resumo: Nos últimos anos do século XV, tendo em conta o crescimento exponencial da cidade de Compostela face ao seu estatuto como um dos mais relevantes centros de peregrinação católicos do mundo, é fundada uma universidade que, desde o início, goza imediatamente de um grande impulso cultural e económico apoiados pelo arcebispado. No século XVI, a Universidade já se encontrava dividida entre as faculdades de Teologia, Gramática, Arte, Direito e Medicina, sendo distinguida no século XVIII com o título de “real universidade” pelo rei Carlos III. Nos dias que correm, o prestígio historicamente ligado à universidade mantém-se, tendo a instituição como objectivo a sua própria conversão num dos 100 melhores centros universitários da União Europeia.

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