Dos objectos artísticos mais difíceis de preservar no mundo da História da Arte são os manuscritos, sendo a sua antiguidade o factor que mais influência tem na sua conservação e, em simultâneo, na seu valor. 200 000 desses objectos estão guardados na Long Room da célebre Trinity College de Dublin; contudo, um deles merece mais atenção do que qualquer outro – o antigo, belo e resistente Livro de Kells, escrito e pintado há mais de mil anos na velha Irlanda.

O Livro de Kells é um testemunho da primazia cultural irlandesa durante a Idade Média. A sua estética insular, manifestada nas várias ilustrações que o manuscrito ostenta – entre elas, as dos Evangelistas e da Virgem com o Menino –, com um gosto pelos nós intrincados que, de tão complexos, chegam a quase tornar as imagens abstractas, impulsionou o Revivalismo Celta durante o século XIX, influenciando a ourivesaria, mobiliário e outras formas artísticas. Constituído por quatro volumes, o livro é constituído por 340 folhas em pergaminho onde se escreveram, em latim, os quatro Evangelhos, acompanhados de um extenso programa de imagens.

Pelo menos três escribas trabalharam nesta obra-prima, incutindo-lhe um ritmo pulsante nas suas formas entrelaçadas, recorrendo a uma palete de cores invulgarmente diversa para a época. O recurso a pigmentos para a coloração de manuscritos era caro durante a Idade Média, especialmente no emprego da folha de ouro e lápis lazúli, como acontece no Livro de Kells. Só os mais especiais manuscritos usufruíam deste privilégio, sugerindo estes factos que o Livro de Kells, grande e luxuoso, era um livro de função sacramental usado durante a missa que possa ter sido produzido para a celebração dos 200 anos do importante santo irlandês Columba.

Considerado por muitos académicos um dos pináculos da arte da iluminura e da caligrafia ocidental medieval, o Livro de Kells, continua imerso em mistérios. O local e data de produção são os principais dois desses mistérios: calcula-se que terá sido feito por volta de 800 d.C. na abadia irlandesa de Kells, numa época conturbada em que a Irlanda sofria com a violência e instabilidades trazidas pelas invasões vikings.

Os mosteiros, dos locais mais seguros durante a Idade Média das invasões, e autênticos centros artísticos e de cultura, eram alvos aliciantes para os invasores, atraídos pelos tesouros ali guardados. O Livro de Kells, objecto precioso, cuja capa estava encrustada de gemas, foi alvo da cobiça dos invasores que atacaram o mosteiro por variadas vezes durante o século X. A sua sobrevivência a estes ataques é um milagre que ainda hoje não se consegue explicar; o que se sabe é que, em 1007, o manuscrito estava ainda seguro em Kells, onde permaneceria até 1654. Depois de uma segunda invasão, desta vez inglesa, o livro seria enviado para a Trinity College em Dubli, lá ficando a são e salvo até os dias de hoje.

Permanentemente em exposição na Trinity College em Dublin, vai ter, durante esta viagem, o privilégio de ver com os seus próprios olhos um dos mais conhecidos e belos manuscritos medievais do mundo e tentar descodificar, dentre a sua decoração em massa, as imagens de santos, das iniciais e dos animais e insectos escondidos entre elas, num dos programas iconográficos mais ambiciosos que hoje se conhecem para um livro iluminado medieval.

Cambridge

Resumo de Viagem

Motivos: Ver o Livro de Kells

Lugares marcantes: Trinity College; Rock of Cashel; Kylemore Abbey

Esforço Físico: Fácil

30%

Nº de Pessoas: 10 a 30

40%

Dias: 5

40%

A Nossa Sugestão

Dublin: Christ Church Cathedral

Resumo: Fundada em 1028 e um dos edifícios mais visitados de Dublin, a Christ Church é também uma das ou talvez mesmo a mais importante igreja da cidade. De raízes vikings, a igreja foi fundada pelo rei hiberno-nórdico (de cultura miscigenada gaélica e viking) junto à antiga povoação viking de Dublin após uma peregrinação do monarca a Roma. A igreja evoluiu ao longo dos séculos, tornando-se uma das mais ricas casas religiosas irlandesas, acumulando em propriedades 40 km2 só em Dublin. Artisticamente, a primeira reforma da igreja dá-se em 1180, quando membros da elite normanda ajudam a financiar uma reconstrução completamente em pedra do edifício, anteriormente de madeira, acrescentando-lhe um coro, transeptos, a cripta e algumas capelas dedicadas a santos. Outras construções seguir-se-iam nos séculos posteriores. Um aspecto curioso da história da cidade de Dublin foi a coexistência de duas catedrais, formalmente reconhecidas em simultâneo em 1300 pelo arcebispo de Dublin. A outra catedral, a de Saint Patrick, foi formalmente suprimida em 1547, garantido um maior poder político, económico e religioso à de Christ Church. Durante os anos de 1871 a 1878, a igreja de Christ Church seria renovava e reconstruída por George Edmunt Street, demolindo-se o coro medieval, construindo-se uma nova casa do capítulo e reconstruindo-se muitos outros espaços que já estavam em mau estado. É também aqui que se pode visitar a maior cripta catedralícia da Bretanha, datada do século XII.

Dublin: Trinity College

Resumo: Uma das mais célebres universidades, das mais populares atracções de Dublin e dos mais belos edifícios da Irlanda, a Trinity College é a mais antiga universidade em funcionamento do país, escondendo nas suas paredes e edifícios uma longa e antiga história cheia de segredos. Fundada pela rainha Elisabete em 1592, a Trinity College veio responder à necessidade de se fornecer uma instituição educativa no país, embora os seus serviços estivessem circunscritos apenas à entrada da elite protestante. Primeiramente estabelecida num mosteiro dessacralizado, a universidade receberia depois uma localização mais adequada em edifícios próprios, inspirando-se nas de Oxford e Cambridge como modelo. Actualmente, a Trinity College é um massivo complexo arquitectónico, somando 190 000 metros2 numa planta compacta e fechada para o exterior, o que garante ao campus tranquilidade e privacidade no centro de uma cidade grande e movimentada. A sua arquitectura incorpora edifícios antigos e modernos, sendo a parte oeste a mais velha, juntando edifícios como o campanário, a capela e a Ala de Examinação, o Edifícios Memorial dos Formados, o edifício do museu, entre outros. Dos mais visitados e reconhecidos edifícios da antiga parte da universidade, destaca-se a biblioteca do século XVI, reformada no século XVII. Além da beleza cativante da biblioteca, o seu acervo é um dos seus maiores tesouros, guardando cerca de 5 milhões de livros e recebendo 100 000 novos todos os anos. O Livro de Kells é dos seus bens mais preciosos. Na chamada Long Room, na biblioteca, construída entre 1712 e 1732, a mais bela das suas salas, guardam-se os 200 000 mais antigos livros da biblioteca.

Galway: Saint Nicholas' Collegiate Church

Resumo: Modesta, mais cheia de pormenores fascinantes, a igreja colegial de São Nicolau remonta a 1320 e é dedicada ao santo Nicolau, protector dos marinheiros, o que faz sentido numa cidade como Galway, desde tempos imemoriais sustentada pela economia e indústria ligada ao mar. A identidade de Galway é ainda mais impressa na igreja pela sua construção em calcário cinzento, típico da cidade. Afectada pelas ondas iconoclastas advindas da fé protestante, a arquitectura da igreja, predominantemente dos séculos XIV e XV, é praticamente desprovida de imagens figurativas. As excepções são, por exemplo, a fonte baptismal medieval, com um relevo de um cão. No exterior da igreja, duas sereias, um dragão, um macaco e um leão decoram a fachada, bem como uma série de gárgulas. A igreja de jurisdição paroquial mas com o estatuto de colegiada, funcionando quase como uma catedral, representou um papel central na vida da cidade. Entre os seus mais famosos visitantes está Cristóvão Colombo, que provavelmente rezou aqui em 1477.

Galway: Kylemore Abbey

Resumo: Nos arredores de Galway, escondida entre o rio e a montanha, levanta-se uma abadia que foi e ainda é a casa de freiras beneditinas. Apesar de invocar uma arquitectura medieval, a abadia de Kylemore foi construída apenas há 150 anos atrás, tendo o mosteiro fundado em 1920 aproveitado os edifícios do castelo de Kylemore. Este castelo foi iniciado em 1867 pela família de Mitchell henry, um médico abastado de Londres que se mudara para Galway com a sua mulher Margaret. Somando 3700 m2 e mais de 70 divisões, a abadia de Kylemore é um edifício colossal. Após a morte da sua mulher e o regresso de Henry a Inglaterra, o edifício é vendido aos duques de Manchester em 1903 e, em 1920, as freiras beneditinas mudam-se para lá quando fogem da Bélgica durante a Primeira Guerra. Entre as secções que estão abertas ao público, destacam-se o jardim vitoriano, desenvolvido no final do século XIX, com mais de 21 estufas e uma equipa de 40 jardineiros que ajudam a mantê-lo; a igreja neo-gótica, construída ao estilo do século XIV e assemelhando-se a uma autêntica catedral em miniatura em homenagem ao amor de Henry por Margaret; o mausoléu de Margaret e Henry, construído em tijolo.

Rock of Cashel

Resumo: Este sítio histórico, localizado no sítio de Cashel no Condado de Tipperary, cosntitui-se como um dos mais visitados da fascinante colecção de castelos da Irlanda. A sua fundação é lendária: segundo a lenda, depois de São Patrício ter expulsado Satanás de uma caverna, resultando no aterrar da rocha em Cashel. A Rocha de Cashel também foi um importante centro político durante séculos para os reis de Munster. O conjunto pitoresco das ruínas do castelo agrega entre si edifícios, na sua maioria do século XII e XIII, sendo o mais antigo uma torre redonda de 28 metros de c. 1100. Outro dos edifícios do castelo que se destaca é a Capela de Cormac, começada em 1127, com tectos abobadados e arcos amplos, contendo dos melhores preservados frescos irlandeses deste período. A catedral, construída entre 1235 e 1270, também é digna de nota.

Kilkenny: Castelo

Resumo: A antiga história do castelo de Kilkenny remonta ao século XII, centúria durante a qual é fundada uma fortificação em madeira por uma personagem conhecida na Irlanda – Strongbow, cavaleiro e arqueiro astuto de origem normanda que, com o apoio do rei de Inglaterra, invade a Irlanda em 1170. Juntamente com o desenvolvimento do seu castelo, Strongbow dota Kilkenny de outras infra-estruturas que dinamizam a vida da população local. Em 1213 seria terminado o primeiro castelo em pedra, de estrutura quadrada assinalada por quatro torres, das quais três subsistem ainda hoje no edifício actual. Finalmente, aqueles que seriam os proprietários do castelo durante 500 anos, os Butlers, compram o edifício em 1391, acabando por vender James Arthur Butler o castelo familiar ao Comité de Restauro de Castelos de Kilkenny em 1967. Reputado como um dos mais famosos castelos da Irlanda e dos mais visitados monumentos do país, o castelo de Kilkenny tem muito para visitar em espaços e conteúdos, abrangendo períodos desde a época medieval até aos séculos XIX e XX ao longo dos três pisos existentes e as várias salas que os constituem até aos jardins ornamentados que embelezam o exterior da fortificação.

Kilkenny: Medieval Mile Museum

No coração da cidade de Kilkenny está localizado o mais interessante museu e monumento da área, o Medieval Mile Museum, cujo nome se inspira na rua onde se encontra sediado – em português, a “Milha Medieval”, ou seja, a artéria urbana principal que orientava a cidade medieval de Kilkenny. Com a fundação deste museu deu-se uma nova vida a uma antiga igreja do século XIII, a de Santa Maria, na qual se instalou para exposição de um conjunto de tesouros artísticos que englobam mais de 800 anos de história da Irlanda em objectos. A instalação do museu numa igreja medieval tão antiga como a de Santa Maria não retira a verdadeira modernidade que rege a imagem e missão deste museu: a reinterpretação dos objectos que antes ocupavam a igreja e que hoje se transformaram em matéria museológica num edifício perfeitamente convertido, simultaneamente contemporâneo e arcaico. A contemporaneidade do edifício é representada pelo projecto arquitectónico que visou incluir materiais modernos de construção em vez de restaurar o que restava da igreja, não desrespeitando, contudo, a estrutura da mesma, culminando numa incrível solução simbiótica que é a mais original e apelativa característica do museu.

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